segunda-feira, 23 de março de 2026

Indiscutivelmente Bela - Michel F.M.


Indiscutivelmente Bela 

Ela era lindíssima !
Indiscutivelmente bela.
Tornava-se belíssima !
Através de seu ar indebelável.

Mechas em castanho-claro lisíssimas,
Modeladas em franjas esvoaçantes,
Compunham seus traços rubros,
De feições escarlates e vidrantes;

Olhos de um castanho-escuro,
Naturalmente realçado,
Por longos cílios arqueados,
Em desproporção ao seu rosto,
Simetricamente traçado.

Alongando-se num semi-losango,
Avolumado,
Moldurado por sobrancelhas torneadas
E questionadoras.

Ela era lindíssima !
Indiscutivelmente bela.
Tornava-se belíssima !
Indiscutivelmente bela.

(Michel F.M. - Crônicas de um Espelho Meu E os Fabulosos Contos Perdidos Do Vale Encontrado - Esplêndida Face Magnífica - 2014)

quinta-feira, 19 de março de 2026

Pacífico em Brasas - Michel F.M.


Pacífico em Brasas 

Após a cordilheira, 
Da assombrosa inanição,
No colapso iminente, 
Nos resta redenção.

Da valiosa insistência, 
Uma mísera porção,
Envolta em resistência, 
Nas tantas direções.

Num tempo desprezível, 
De pavorosas inversões,
Subversivos verdadeiros, 
Podem prover contraversões.

Basta de Filantropia, 
Sou Pacífico em Brasas,
Incinerando a Terra Fria.

Morte a tolerância insossa, 
Vou progredir pros cantos,
Indisciplinar as crias.

Cordeiros não serão imolados,
Os Deuses da discórdia sangrarão.
Vingança não é prato requentado,
Mas banquete aos relegados
Onde os mesmos se fartarão.

Via pros relatos deturpados, 
Destroços valiosos requintados,
Conquistados violentamente, 
Gestores do flagelo bestial.

Eméritos, gurus, molestadores,
A doutrina nunca foi a solução,
Catedráticos, doutores, acadêmicos,
Instruídos com nenhuma educação.

Menina foi pro parque ao meio dia,
Condessa no País das Armadilhas,
Autopsia um tanto inconclusiva,
Inerte, jazendo em mesa frígida.

Legista concluiu com maestria,
Violação, seguida de asfixia.

Um Basta a esta podre Distopia, 
Sou Pacífico em Brasas,
Esbraseando a Terra Fria.

Morte a condescendência tosca, 
Vou progredir pros quintos,
Que se dane a maioria.

Foda-se equilíbrio e equidade,
Que se fodam os raros preciosos,
Fodam-se abundantes generosos,
E que assim sendo se foda a Utopia.

Menina nunca foi presenteada,
Com rosas perfumadas nesta vida,
Em torno do cortejo o que se via,
Gardênias, tulipas e margaridas.

Basta de Filantropia, 
Sou Pacífico em Brasas,
Incinerando a Terra Fria.

Um Basta a esta podre Distopia, 
Sou Pacífico em Brasas,
Esbraseando a Terra Fria.

(Michel F.M. - Crônicas de um Espelho Meu e os Fabulosos Contos Perdidos do Vale Encontrado - Esplêndida Face Magnífica - 2014)

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

A obra "Crônicas de um Espelho Meu e os Fabulosos Contos Perdidos do Vale Encontrado", de Michel F.M. (Bruno Michel Ferraz Margoni), apresenta-se como uma construção literária híbrida que transita entre a prosa poética, a crônica simbólica e o conto filosófico.


Resenha Crítica

Michel F.M. - Crônicas de um Espelho Meu e os Fabulosos Contos Perdidos do Vale Encontrado

A obra "Crônicas de um Espelho Meu e os Fabulosos Contos Perdidos do Vale Encontrado", de Michel F.M. (Bruno Michel Ferraz Margoni), apresenta-se como uma construção literária híbrida que transita entre a prosa poética, a crônica simbólica e o conto filosófico. Longe de uma narrativa linear tradicional, o livro propõe ao leitor uma experiência estética e reflexiva, estruturada por fragmentos narrativos que funcionam como espelhos simbólicos da interioridade humana.

O eixo central da obra reside no uso do espelho como metáfora existencial. Esse elemento não atua apenas como objeto narrativo, mas como símbolo da consciência, da identidade e da fragmentação do sujeito. O “espelho meu” revela uma dimensão íntima e subjetiva, sugerindo que o processo narrativo é, na verdade, uma jornada interior. O sujeito que observa também é o observado, instaurando uma dinâmica reflexiva que dissolve a separação entre narrador, personagem e leitor.

Paralelamente, o “Vale Encontrado” constitui um espaço simbólico que ultrapassa a noção de lugar físico. Ele se configura como território imaginário, arquetípico e psicológico, representando um espaço de memória, refúgio e reconstrução identitária. Nesse cenário, os chamados “contos perdidos” funcionam como fragmentos de experiências, lembranças e narrativas esquecidas, compondo uma cartografia simbólica do eu. Trata-se de uma estrutura narrativa que se organiza mais por associação de sentidos do que por causalidade temporal.

Do ponto de vista estilístico, a linguagem de Michel F.M. é marcada por forte densidade poética, com predomínio de imagens simbólicas, tom introspectivo e ritmo contemplativo. A obra privilegia a sugestão em detrimento da explicitação, o que exige do leitor uma postura ativa na construção de sentidos. Essa escolha estética afasta o texto de uma literatura de consumo rápido e o aproxima de uma literatura de experiência, em que a leitura se configura como processo interpretativo e não apenas como recepção passiva.

A fragmentação estrutural, longe de representar fragilidade composicional, constitui um recurso coerente com a proposta temática da obra. A identidade, a memória e a consciência são apresentadas como instâncias não lineares, descontínuas e múltiplas. Assim, a forma do texto espelha seu conteúdo: a narrativa é fragmentada porque o sujeito também o é. Essa relação entre forma e significado confere unidade conceitual ao livro, mesmo em sua aparente dispersão narrativa.

No campo temático, a obra dialoga com questões existenciais fundamentais, como a busca por sentido, a construção do eu, a solidão, a memória e o conflito entre realidade e subjetividade. Há, ainda, uma dimensão filosófica implícita, na medida em que o texto problematiza a noção de identidade como algo fixo e estável, propondo-a como processo, fluxo e construção simbólica contínua.

Como proposta literária, Crônicas de um Espelho Meu não se orienta pela lógica do enredo tradicional, mas pela lógica da introspecção e da experiência estética. Seu valor reside menos na narrativa factual e mais na capacidade de provocar reflexão, identificação e deslocamento interpretativo no leitor. Trata-se de uma obra que não oferece respostas, mas produz perguntas; não conduz, mas convida; não explica, mas sugere.

Em síntese, o livro de Michel F.M. constitui uma produção literária de caráter simbólico, filosófico e existencial, que se destaca pela coerência entre forma e conteúdo, pela densidade poética da linguagem e pela complexidade temática. É uma obra voltada a leitores que buscam mais do que entretenimento: buscam reflexão, experiência estética e aprofundamento subjetivo. Sua principal força está na capacidade de transformar a leitura em um processo de autoconfronto, no qual o texto se converte, metaforicamente, em espelho.